2014 Relatório
de atividades

Empresas para além das fronteiras

O processo de geração de valor das empresas se caracterizava por uma visão restrita onde, as empresas se preocupavam basicamente com aquilo que acontecia dentro dos seus limites – o seu modelo de negócio, suas operações, seus produtos e serviços, sua gestão, seus resultados. No entanto, essa abordagem está sofrendo profunda transformação, pois num mundo tão globalizado e interdependente como o atual para ter resultados, uma empresa precisa olhar também para os seus stakeholders, para os seus parceiros ao longo da sua cadeia de valor, para as demandas do mercado e das pessoas e ambientes impactados pela sua operação.

Uma das tarefas do GVces, tanto através de suas Iniciativas Empresariais como de outros projetos, é auxiliar as empresas brasileiras no esforço de compreender melhor suas redes a partir da sustentabilidade, indo para além das suas próprias fronteiras, de forma a construir um “ecossistema” empresarial favorável à inovação e ao desenvolvimento duradouro e inclusivo, baseado no diálogo permanente entre os atores e na geração de valor comum para todos os atores.

PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS DA CADEIA DE VALOR
As grandes empresas brasileiras, que administram e movimentam bilhões de reais anualmente, representam apenas 0,15% do universo empresarial do país. A esmagadora maioria das empresas brasileiras é constituída por micro, pequenas e médias organizações, espalhadas por todo o Brasil. Por isso, qualquer transformação efetiva no cenário empresarial brasileiro passa pelo engajamento dessas organizações de menor porte, que nem sempre têm as condições e o conhecimento para explorar seu potencial enquanto agente de mudança.

Facilitar o engajamento das empresas de menor porte é algo que está ao alcance das grandes empresas, dentro da relação que mantêm com as menores que atuam como fornecedoras de produtos e serviços.

“Os aprendizados adquiridos no GT de gestão de fornecedores de ISCV são aplicados internamente no Grupo Boticário, pois servem como referência para melhoria contínua em processos já implementados e nos planejamentos da iniciativa de gestão de sustentabilidade para fornecedores. Também é um importante fórum para troca de experiências e construção conjunta de soluções.”

Patrícia Calderani da Rosa,
Grupo Boticário

S

As necessidades são mútuas. De um lado, as micro, pequenas e médias empresas (MPE) encontram uma série de desafios para acessar grandes mercados, corresponder às exigências do mercado relacionadas a produtos e práticas de gestão, e inserir produtos e serviços inovadores, com atributos de sustentabilidade, nas cadeias e processos de grandes empresas. Do outro lado, as grandes empresas enfrentam desafios cada vez maiores para lidar com as transformações da sociedade, no mercado e no ambiente de negócios. E podem encontrar nas pequenas empresas, com suas operações mais flexíveis, verdadeiras facilitadoras de inovação e criação de valor integrado com atributos de sustentabilidade.

Desde 2011, em parceria com o Citi e com o patrocínio da Citi Foundation, o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) busca reforçar as bases do relacionamento de grandes empresas e micro, pequenos e médios empreendimentos presentes em sua cadeia de valor, em prol de um ambiente empresarial favorável a soluções inovadoras e sustentáveis. Uma das suas frentes de atuação mais relevantes está na reflexão e no desenvolvimento de soluções que facilitem a gestão de fornecedores orientada para inovação e sustentabilidade na cadeia de valor de grandes empresas.

Nessa perspectiva, um grupo de trabalho (GT) - iniciado em 2013 - realizou em 2014 um diagnóstico sobre práticas de gestão de fornecedores e questões regulatórias no tema. O GT consolidou um banco de dados para análise sobre práticas, fragilidades e oportunidades de atuação para melhoria, feita de forma individual para cada empresa. A base das informações partiu de dados levantados a partir de um questionário elaborado pela equipe de ISCV, em parceria com o programa Consumo Sustentável do GVces. Outro foco do GT foi a aproximação das empresas do grupo com o processo de construção da norma ISO 20.400 sobre Compras Sustentáveis, em andamento desde 2013. No Brasil, o GVces tem assento na Comissão Especial de Estudo da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) sobre Compras Sustentáveis, que está apoiando o processo da ISO 20.400. O GVces tem levado contribuições das empresas do GT a essa comissão.

“A participação do GVces na Comissão Especial de Estudos sobre Compras Sustentáveis (ABNT/CEE 277) visa contribuir tecnicamente com o debate sobre as sinergias entre compras públicas e empresariais, abordagens de ciclo de vida, atributos de sustentabilidade, gestão de fornecedores e, mais ainda, deverá facilitar a conexão deste debate com as empresas participantes do GT de gestão de fornecedores de ISCV, a fim de buscar caminhos para sua futura implementação.”

Gabriela Alem,
pesquisadora do GVces, durante encontro do GT de Gestão de Fornecedores de ISCV (16/04/2014)

Links relacionados

PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS DA ATUAÇÃO EMPRESARIAL
O esforço de superar os limites básicos da operação não deve ser circunscrito apenas ao que se entende como a cadeia de valor de uma empresa. Existem atores e questões que vão muito além do negócio, ainda que estejam diretamente relacionadas a ele. Entender como suas operações impactam comunidades e regiões, positiva ou negativamente, em questões econômicas, sociais, políticas e ambientais também é crucial para uma empresa que busca atuar de forma sustentável.

“Acho importante participar de espaços como esse, porque é nesse momento que a gente encontra as diferentes iniciativas e começa a perceber o que a gente tem em comum e o que tem de singular. Não só desenvolver conhecimento, mas, sobretudo, poder desenvolver a inovação em desenvolvimento local como um produto de fato, um setor social e econômico que pode ter cada vez mais olhares, mais força, mais recursos e energia da sociedade.”

Rodrigo Bandeira de Luna
Cidade Democrática, sobre o projeto Inovação em Desenvolvimento Local (IDLocal e ISCV)

Um tema particularmente importante na agenda de trabalho do GVces desde sua criação é o do desenvolvimento local. Para um território vasto como do Brasil, repleto de contradições entre regiões muito ricas e regiões mais carentes, a questão local é estratégica quando se pensa num modelo de desenvolvimento sustentável para o país. Como experiências passadas já demonstraram, não basta poder público e empresas despejarem recursos financeiros sobre um território para garantir seu desenvolvimento pleno: esses atores precisam considerar questões implícitas à realidade local – as demandas, as necessidades, as potencialidades, e as vulnerabilidades características de cada território.

É nesse contexto que emerge a Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local). Criada pelo GVces em 2013, tem a proposta de inserir o tema do desenvolvimento local na estratégia de negócio das empresas, articulando-as e trazendo-as para o debate público sobre os desafios e as possibilidades de um desenvolvimento social e ambientalmente sustentável para as regiões onde elas se inserem. O papel estratégico nessa tarefa é não só de força motriz por trás dos grandes empreendimentos, mas também de direcionar recursos e conhecimento para mobilizar outros atores - como o poder público e a sociedade civil - em prol de uma agenda comum de desenvolvimento local.

Em 2014, a IDLocal se mobilizou em duas frentes de atuação. Na primeira, as empresas membros deram continuidade ao tema da proteção integral de crianças e adolescentes, que tinha sido a agenda central do projeto no ano anterior. Partindo do mapa estratégico para geração de valor compartilhado, construído em seu primeiro ciclo de atividade, a ID Local apoiou seus membros na aplicação prática das Diretrizes Empresariais desenhadas em 2013 através da adaptação da ferramenta de gestão BSC (Balanced Scorecard) Seu objetivo central foi aquele de orientar as empresas numa atuação construtiva e efetiva na proteção integral dos direitos das crianças e adolescentes, nos territórios impactados por grandes empreendimentos. Esse acompanhamento foi feito em parceria com a Childhood Brasil e o Grupo de Empresas e Direitos Humanos da FGV Direito SP. Algumas empresas membros conduziram projetos piloto, internalizando as diretrizes e ferramentas em suas práticas corporativas nos territórios em que atuam. Os resultados, bem como as reflexões e os aprendizados desse processo, foram sistematizados no guia prático “Geração de Valor Compartilhado a Partir da Proteção Integral de Crianças e Adolescentes (ID Local Ciclo 2014)”, publicado em maio de 2015.

A segunda frente de atuação se deu num esforço colaborativo entre ID Local e o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), com a iniciativa Inovação em Desenvolvimento Local. Essa integração de agendas trabalhou com a atuação e relacionamento de grandes empresas e suas cadeias de valor nos territórios em que se inserem. Esse é um tópico relevante quando se pensa em desenvolvimento local e promoção da inovação e sustentabilidade no universo empresarial brasileiro. Primeiro, porque os grandes empreendimentos impactam diretamente na economia local, incentivando certos setores econômicos locais, e muitas empresas locais acabam servindo como fornecedoras imediatas desses empreendimentos. E segundo, porque as empresas locais, das regiões que recebem grandes empreendimentos, são geralmente de pequeno porte e compartilham assim desafios e potencialidades de suas companheiras de menor porte nos grandes centros urbanos.

Fundamentalmente, a lógica que permeou as reflexões dessa iniciativa foi a de que uma cadeia de valor eficiente e socioambientalmente responsável pode beneficiar e fortalecer o território, ao mesmo tempo em que um território estruturado e fortalecido pode contribuir para uma cadeia de valor mais eficiente e socioambientalmente responsável.

Assim, a proposta da iniciativa Inovação em Desenvolvimento Local foi auxiliar as empresas para que se tornem protagonistas de ações inovadoras, inspirando práticas de negócios que fomentem ecossistemas de inovação nos territórios impactados pela cadeia de valor de grandes empreendimentos. Ou, ainda, pela atuação direta dessas empresas, contribuindo para aprimorar o relacionamento com os diversos stakeholders.

Para tanto, cinco encontros foram promovidos para compartilhamento de conhecimento e experiências no tema entre as empresas e também entre elas e outros atores relevantes. Realizou-se também uma chamada pública de casos que buscou iniciativas inovadoras no âmbito dos relacionamentos entre atores de territórios que hospedam grandes empresas e a cadeia de valor dessas últimas. Foram encaminhadas 44 experiências, sendo que 13 foram selecionadas para visitas de campo pela equipe do GVces. Finalmente, dez casos foram selecionados para destaque na publicação “Inovação em Desenvolvimento Local em Territórios com Atuação de Grandes Empresas”, lançada em junho de 2015, que também sistematiza as reflexões realizadas pelo grupo de empresas.

Uma frente de trabalho importante do GVces em 2014 foi a parceria entre ID Local e ISCV no projeto Inovação em Desenvolvimento Local, que buscou exemplos de inovação na atuação de grandes empresas responsáveis por obras ou empreendimentos de grande impacto no interior do Brasil

“As situações pré-existentes de vulnerabilidade relacionadas a crianças e adolescentes nesses territórios, somadas a novas dinâmicas trazidas por grandes empreendimentos e suas cadeias de valor, podem, potencialmente, ser agravadas e traduzidas em violações dos direitos (...). Entretanto, a chegada desses empreendimentos pode também gerar oportunidades para o território, principalmente se garantidas ações articuladas entre empresas, poder público e sociedade (...). Para tanto, é fundamental a inclusão de tais vulnerabilidades na análise e gestão de riscos por parte das empresas responsáveis por grandes obras, não somente em suas operações diretas, mas também em suas cadeias de valor, de forma a contribuir para o desenvolvimento local, gerar valor para empresas e acionistas e propiciar um ambiente de licença social para operar.”

Publicação
“Geração de Valor Compartilhado a Partir da Proteção Integral de Crianças e Adolescentes (IDLocal Ciclo 2014)” (p. 13-14)

Links relacionados

PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS NACIONAIS
Se as grandes empresas precisam olhar para fora das suas fronteiras físicas para desenvolver soluções com atributos de sustentabilidade para o mercado, as empresas de menor porte têm um desafio similar, mas no sentido contrário: muitas delas já desenvolvem essas soluções inovadoras e sustentáveis – valiosas e desejadas não apenas no mercado brasileiro, mas também no exterior –, mas não conseguem expandir seus mercados.

“A parceria da Apex com o GVces foi de uma sintonia e competência que não me lembro de ter presenciado algo parecido em toda minha vida profissional. Este projeto não poderia ter chegado em melhor momento, no final de 2013 pensávamos até em vender a fazenda pois os preços do café atravessam uma grande crise e não conseguíamos sair do mercado de produto commodity. Agora em 2015 existe boa possibilidade de concretizarmos uma primeira exportação, representantes da empresa interessada já fizeram 2 visitas à nossa fazenda. Acredito que as melhores oportunidades deverão surgir através das traders que contatamos na rodada de negócios BSS”

Jefferson Adorno,
sócio proprietário da Fazenda Retiro Santo Antônio, uma das MPEs selecionadas pelo projeto ICV Global.

Além das questões operacionais, como problemas de infraestrutura e de financiamento, muitos empreendimentos de menor porte precisam lidar com um aspecto crucial na hora de entrar no tabuleiro comercial internacional, que é a definição da sua estratégia de atuação em mercados externos potenciais.

Para apoiar a inserção internacional dessas empresas de menor porte, baseadas em produtos e serviços com atributos de inovação e sustentabilidade, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e o GVces se uniram em 2013 para criar o projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global). O propósito dessa iniciativa é contribuir para a internacionalização de pequenas empresas e cadeias de valor através do fortalecimento dos seus atributos de sustentabilidade, práticas empresariais e argumentos de venda.

Para tanto, o projeto realizou um processo seletivo de MPE interessadas, que foram avaliadas de acordo com suas práticas, produtos e/ou serviços com base em critérios de inovação e sustentabilidade. Quase 60 empresas se inscreveram e 12 foram selecionadas para participar do ciclo que iniciou em 2014.

As empresas selecionadas passaram por duas fases de capacitação e preparação – mentoring (capacitação nos temas da sustentabilidade e no desenvolvimento de estratégias e práticas orientadas para inovação em sustentabilidade) e aceleração de impacto (plataforma de aconselhamento). Além disso, as MPE selecionadas participaram de uma rodada de negócios e de atividades de promoção comercial junto à Apex-Brasil, como o evento Brazilian Sustainable Solutions, promovido em novembro de 2014 para aproximar as empresas a possíveis compradores internacionais, resultando nas primeiras transações internacionais de algumas delas.

Fruto da união de esforços do GVces e da Apex-Brasil, o projeto ICV Global trouxe uma nova abordagem para internacionalização de empresas de pequeno porte no Brasil, com foco em atributos de inovação e sustentabilidade como vantagem competitiva para inserção no mercado internacional Links relacionados

O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

Num mundo baseado em redes, ter consciência da complexidade que permeia a realidade de uma organização é fundamental para o seu sucesso. Isso significa que, para construir um novo modelo de economia, baseado na sustentabilidade e na inclusão social, precisamos do engajamento e do diálogo permanente e construtivo entre todos os atores.

Do desenvolvimento local aos ecossistemas de inovação, da proteção integral de crianças e adolescentes à internacionalização de MPE – tudo isso depende cada vez mais da atuação concertada de diferentes atores, em diferentes setores, mas com objetivos que se baseiam numa ideia comum – sustentabilidade. O GVces orienta seus projetos e iniciativas para apoiar esses esforços de construção coletiva e de desenvolvimento comum de soluções voltadas para a sustentabilidade, dentro e fora dos limites operacionais das empresas brasileiras.

Em relação à gestão de fornecedores, por exemplo, o projeto ISCV continua com as atividades do GT em 2015, com foco no desenvolvimento de um protocolo para apoiar empresas na elaboração e implementação de matrizes para avaliação de riscos nas cadeias de valor.

Também em 2015, o projeto ISCV se debruça sobre um tema particularmente desafiador para as empresas brasileiras: Distribuição & Logística. A proposta de trabalho para esse ciclo é explorar, entre outros, aspectos como contexto, impactos e desafios dos processos de distribuição e logística no Brasil; inovações para gestão de impactos econômicos, sociais e ambientais; distribuição e logística como meio para geração de oportunidades de inclusão social a partir do empreendedorismo e de negócios na base da pirâmide; e sustentabilidade como vantagem competitiva nas redes de distribuição.

O projeto ICV Global dá prosseguimento ao seu primeiro ciclo em 2015, dessa vez com foco em MPE com potencial de internacionalização que façam parte da cadeia de valor de grandes empresas (denominadas “empresas-âncora”). Esta etapa busca contribuir para a consolidação das empresas-âncora em mercados internacionais e possibilitará posicioná-las como indutoras de práticas sustentáveis em cadeias de valor. O objetivo é oferecer à estas pequenas e médias empresas oportunidades de formação em sustentabilidade através de oficinas de capacitação. Estas atividades serão desenvolvidas ao longo dos primeiros cinco meses de 2015.

Galeria de fotos