2014 Relatório
de atividades

Índices e Indicadores

Informação é peça chave para qualquer tipo de ação em sustentabilidade: ter diagnóstico de um contexto econômico e socioambiental, saber sobre impactos de ações passadas, prever desdobramentos de iniciativas no futuro. Na construção de um projeto de desenvolvimento sustentável para o Brasil, os índices e indicadores são ferramentas cruciais para que o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil possam desenhar ações efetivas, fundamentadas e concertadas.

Criar, disseminar e aperfeiçoar essas ferramentas tem sido foco do GVces há mais de uma década, desenvolvendo métodos e orientando usos que gerem a informação necessária para a tomada de decisão de negócios e políticas públicas condizentes com uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL
Para muitos investidores, já não basta a empresa render dividendos – ela precisa gerar impactos positivos à sociedade. Ao fazer isso, uma empresa tem o potencial de catalisar a geração de riquezas no ambiente ao seu redor, o que resulta também em melhorias no seu próprio desempenho. Investidores em todo o mundo têm buscado esse tipo de investimento, demandando das empresas compromissos e valores alinhados com o bem comum, como inclusão social, geração e distribuição de renda, e preservação do meio ambiente.

Criado em 2005, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA surgiu dentro desse contexto de investimento social responsável, uma tendência observada em vários países há muito tempo, mas que ganhou importância crescente a partir dos anos 1990, em linha com a globalização do sistema financeiro e das cadeias de suprimento. O conceito fundamental é influenciar o comportamento das empresas por meio da pressão exercida por investidores e da busca de atratividade pelas empresas, que desejam ter acesso a esses capitais.

Raio-X da carteira 2014/2015 do ISE BM&FBOVESPA

  • 65% possuem Comitê de Sustentabilidade que se reporta ao Conselho de Administração (2013: 58%) e 63% contam com conselheiros de administração neste comitê (2013: 58%);
  • 98% possuem diretoria responsável por questões relativas à sustentabilidade que se reporta diretamente ao primeiro escalão (2013: 95%);
  • 83% possuem política corporativa sobre mudanças climáticas aprovada pelo CA ou pela alta direção;
  • 65% possuem um sistema de remuneração variável que prevê a correlação entre os riscos assumidos, a remuneração efetivamente paga e o resultado da companhia (2013: 53%);
  • 63% acompanham sistematicamente os indicadores de sustentabilidade e com a mesma frequência das informações financeiras (2013: 50%);
  • 84% das empresas declaram que divulgam inventário de emissões de GEE. 67% se comprometeram com metas de redução de GEE e, destas, 49% atingiram seus objetivos ou mesmo os superaram. 33% das empresas não estabeleceram metas;
  • A incorporação de requisitos ambientais no projeto de novos produtos/serviços, processos ou empreendimentos é uma prática em 77% das empresas da carteira.

O ISE BM&FBOVESPA foi um dos pioneiros mundiais no uso de instrumentos de mercado de capital para diagnosticar práticas e soluções de sustentabilidade empresarial, destacando essas organizações junto a investidores interessados nesse tipo de investimento. Ou seja, o ISE tem como missão apoiar o processo de tomada de decisão de investidores e, ao mesmo tempo, estimular as empresas na adoção de melhores práticas de sustentabilidade empresarial.

A seleção das empresas é feita por meio de uma metodologia desenvolvida pelo GVces. Na base, um questionário que permite realizar uma análise comparativa das empresas listadas na BM&FBOVESPA sob os múltiplos aspectos da sustentabilidade. As empresas são avaliadas pelo desempenho obtido a partir das respostas do questionário e na análise amostral de documentos corporativos que comprovam tais respostas. O resultado dessa avaliação é a elaboração de uma matriz que mescla dados quantitativos (pontuação da empresa no questionário) e qualitativos (notas atribuídas aos documentos comprobatórios). Com base nessa matriz elaborada pela equipe do programa Finanças Sustentáveis do GVces, o Conselho Deliberativo do ISE (CISE) define a carteira que irá vigorar no ano seguinte.

Anualmente, essa metodologia é revisada publicamente pelo GVces e pela BM&FBOVESPA, com o questionário sendo submetido a oficinas temáticas e processos de consulta e audiência públicas. Empresas, especialistas e sociedade podem contribuir ativamente para aprimorar o processo de avaliação da sustentabilidade empresarial, conferindo maior legitimidade e valor ao processo e, ao mesmo tempo, promovendo a harmonização de agendas de diferentes setores da sociedade.

A mais recente carteira do ISE, anunciada em 26 de novembro passado, e que vigora entre 05 de janeiro de 2015 a 02 de janeiro de 2016, reúne 52 ações de 40 companhias, que representam 19 setores e somam R$ 1,22 trilhão em valor de mercado, equivalente a 49,87% do total de valor das companhias com ações negociações na BM&FBOVESPA (dados de 24/11/2014).

No ano passado, o ISE reafirmou sua função de apoiar as empresas na adoção de práticas e soluções mais sustentáveis ao criar uma nova modalidade de participação no processo de seleção da carteira – o simulado. A partir de 2014, todas as empresas listadas na Bolsa têm a oportunidade de simular sua participação no processo seletivo, usando o questionário de seleção como benchmark para orientar seus esforços em prol da sustentabilidade empresarial.

Outra iniciativa do ISE em 2014 foi reforçar a proposta de transparência das informações coletadas pelo questionário de seleção junto ao público em geral. No processo seletivo da carteira 2014/2015, o número de empresas que autorizaram a abertura das respostas do questionário saltou de 22 para 34, representando 85% do total da nova carteira.

Outra frente de atuação do GVces pela sustentabilidade nas empresas é o Guia Exame de Sustentabilidade, publicação da Editora Abril que conta com o apoio metodológico do GVces para a seleção de empresas destacadas em suas práticas, compromissos e resultados sob aspectos econômico, financeiros, sociais e ambientais.

A edição 2014 do Guia Exame de Sustentabilidade reuniu 61 empresas-modelo, em 18 setores, com destaque especial para as companhias com as melhores práticas em cada um deles. Além disso, a publicação também destacou as companhias com as melhores práticas em 10 temas da sustentabilidade – Governança da sustentabilidade; Direitos humanos; Mudanças climáticas; Relação com a comunidade; Relação com clientes; Gestão de fornecedores; Gestão de água; Gestão de biodiversidade; Gestão de resíduos; e Ética e transparência.

“Com esta nova categoria, queremos preparar as empresas que ainda estão no início da sua jornada da sustentabilidade e que querem futuramente participar do ISE. O simulado servirá como um passo inicial de autoconhecimento sobre o tema e para se familiarizar com o questionário.”

Sonia Favaretto,
presidente do Conselho do ISE, no evento inaugural do ciclo 2014 do ISE BM&FBOVESPA (26/02)

Links relacionados

MONITORAMENTO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
As transformações desencadeadas no território por empreendimentos de grande porte são numerosas e profundas. Para além dos impactos ambientais, os impactos socioeconômicos podem ser de altíssima complexidade, desafiando gestores públicos, empresas e sociedade civil.

O cenário básico da instalação de qualquer grande obra é de atração de fluxos migratórios, por conta do aquecimento econômico promovido pelo empreendimento. O contingente de migrantes em busca de oportunidades representa um acréscimo de pressão sobre infraestrutura e serviços, públicos e privados, em municípios já bastante carentes.

Informações sobre a Amazônia e Belo Monte

  • Dos cerca de 600 municípios amazônicos, 14 respondem por 50% do PIB regional;
  • Belo Monte é o maior canteiro de obras do País e será a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás apenas de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai e Três Gargantas, na China;
  • O empreendimento custa em torno de R$ 30 bilhões (85% financiado pelo BNDES), dos quais R$ 3,5 bilhões destinam-se às ações socioambientais de compensação e mitigação de impactos;
  • A cidade de Altamira, polo regional sob influência de Belo Monte, registrou aumento de 50% nos acidentes de trânsito entre 2007 e 2011. O índice de acidentes a cada cem mil habitantes é cerca de 4 vezes superior ao da capital, Belém;

Mais do que acompanhar cada transformação, é preciso lançar luz sobre as conexões entre elas. Entender o que funciona, o que não funciona e por quê. De que forma as medidas compensatórias de impactos dialogam com o amplo espectro de políticas públicas, ações da sociedade civil e com a visão de futuro que as próprias comunidades têm sobre si. Por fim, é preciso criar ferramentas de monitoramento permanente, com informações acessíveis a todos, que em última instância fortaleçam a cidadania e democratizem a participação.

Foi com esse espírito que a FGV, por meio do GVces, credenciou-se junto à Câmara Técnica de Monitoramento (CTM) do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRSX) para a criação de uma ferramenta de monitoramento online, interativa, atualizada periodicamente e de fácil compreensão para uso de todos os interessados, desde o gestor público até o cidadão comum, bem como encaminhamentos práticos para os principais desafios encontrados na região, promovendo ampla concertação em torno de soluções.

Iniciado em junho de 2014, o projeto Indicadores de Belo Monte dedica-se a monitorar o cumprimento de um conjunto de condicionantes do licenciamento ambiental da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, bem como a eficácia de políticas públicas e ações que recaem sobre essas medidas. E, ainda, a efetividade do desenvolvimento na região que recebe o empreendimento. O monitoramento se dá sob os temas educação, saúde, saneamento básico, deslocamentos compulsórios no meio rural, controle da malária e fiscalização ambiental. E para as seguintes questões indígenas: saúde, educação, proteção das terras indígenas, regularização fundiária e comitês de participação social. O escopo primordial do projeto é a chamada Área Diretamente Atingida (AID) pelo empreendimento, composta por Altamira, Vitória do Xingu, Brasil Novo, Senador José Porfírio e Anapu, todos no Estado do Pará, mas o monitoramento do desenvolvimento local amplia-se para os onze municípios compreendidos no Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu.

Para atender aos objetivos, o projeto prevê a construção de matrizes de indicadores temáticas e posterior coleta de dados, atreladas à identificação de “mapas dos caminhos” para sinergias com políticas públicas e ações governamentais, que apontem rumos práticos para superar gargalos e desafios do processo. Ao longo do trabalho, as informações levantadas e as análises produzidas são disponibilizadas em publicações periódicas e devem culminar em uma ferramenta permanente de monitoramento, na forma de um sistema online, para ampla e contínua disseminação dos resultados e uso e apropriação pela sociedade.

A iniciativa trata o acesso à informação como instrumento de fortalecimento da cidadania e deve contribuir para ampliar a participação da sociedade local na construção de seus rumos. Aí reside a importância do monitoramento do desenvolvimento local, especialmente no contexto de inserção de grandes obras e das intensas transformações vividas no território.

No ano passado, o esforço do projeto concentrou-se na elaboração das matrizes de indicadores para cada um dos temas, bem como ampla articulação com atores locais, regionais e federais para a identificação dos principais desafios, e encaminhamentos propositivos para soluções. Foram quase 60 reuniões e mais de 120 documentos analisados para se chegar aos quadros que organizam quais os elementos mais importantes a serem observados e a caminhos possíveis para os gargalos encontrados.

Para tanto, cinco pesquisadores residentes em Altamira realizaram ampla consulta a lideranças, gestores, especialistas e cidadãos atuantes na questão de Belo Monte. Em Brasília, o projeto articula-se continuamente com gestores públicos dos diversos ministérios envolvidos nas ações de Belo Monte, trazendo provocações e estimulando o diálogo e a concertação, bem como atualizando continuamente os trabalhos e trocando valiosas informações com as equipes do IBAMA e da FUNAI envolvidas no processo. O acompanhamento e troca constante no âmbito do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu também foi foco do trabalho no período.

Esse processo representou também a consolidação de um método, cuja principal inovação é olhar para o cumprimento das condicionantes do licenciamento ambiental no contexto do desenvolvimento local. Assim, a metodologia expande o olhar para os insumos (políticas, articulações e ações governamentais) que influenciam tanto o cumprimento das condicionantes quanto os indicadores de desenvolvimento.

O projeto Indicadores de Belo Monte busca ajudar no monitoramento do cumprimento de um conjunto de condicionantes do licenciamento ambiental da usina hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira (PA).

“Controle social sobre obras de interesse público e que causam impactos socioambientais indesejáveis tem baixa eficácia se não estiver respaldado em informações e indicadores socioambientais permanentemente atualizadas e disponíveis para a sociedade. O esforço da Câmara Técnica de Monitoramento do PDRS Xingu na contratação da Fundação Getulio Vargas para realizar este trabalho em Belo Monte – e seus primeiros resultados – representam uma inovação importante para o desenvolvimento da democracia e da justiça social no Brasil."

André Villas Boas,
secretário executivo do Instituto Socioambiental (ISA)

Links relacionados

EFICIÊNCIA DO CARBONO NAS EMPRESAS
O esforço global para combater as mudanças do clima requer que os atores envolvidos tenham transparência com relação às suas emissões de gases do efeito estufa (GEE). Sem transparência, não é possível aferir de forma clara e realista qual a responsabilidade de determinado ator nas emissões de uma economia nem qual a efetividade das suas ações para reduzir essas emissões. Muitos investidores já enxergam a transparência com relação à questão climática como um diferencial na hora de aplicar seu capital, buscando empresas e organizações cientes dos seus impactos e riscos climáticos, e orientadas para a redução dos mesmos.

Foi considerando essas preocupações que a BM&FBOVESPA e o BNDES criaram o Índice Carbono Eficiente (ICO2), um índice de mercado composto pelas ações das companhias participantes do índice IBrX-50 que aceitaram participar dessa iniciativa, adotando práticas transparentes com relação a suas emissões de GEE. Para ponderação das ações das empresas componentes, o índice leva em consideração o grau de eficiência das emissões de GEE de cada organização.

Desde 2011, o GVces apoia ativamente os esforços do ICO2 para promover a transparência das empresas com relação às suas emissões de GEE. Novamente, em 2014, o GVces foi responsável por auxiliar tecnicamente as cerca de 40 empresas participantes, e por revisar os dados dos inventários de emissões para subsidiar a BM&FBOVESPA na constituição da carteira 2015 do ICO2.

O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

Informação transparente e acurada é crucial para a tomada de decisões que ditam rumos da sociedade. Em questões como mudanças climáticas e desenvolvimento local, essa relação é ainda mais delicada: decisões equivocadas podem levar a cenários bastante precários, que reverberam negativamente na sociedade em geral – e, invariavelmente, os menos resilientes são aqueles que já se encontram em situação de vulnerabilidade socioambiental.

A base da decisão correta está na informação correta, aferível e realista. Por isso, um dos focos do trabalho do GVces está na disponibilização de ferramentas que auxiliem governos, empresas e sociedade civil nessa tarefa. Um dos exemplos mais notáveis desse esforço é o trabalho do GVces com o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA. Desde a sua criação, há uma década, o GVces atua no apoio metodológico na seleção das carteiras anuais do ISE. Esse processo é renovado anualmente, com a revisão pública e aberta do questionário de seleção do ISE, conduzida junto às empresas e a todos os atores interessados.

Durante o ano de 2015 ocorrerá o ciclo longo de revisão do questionário, a ser preenchido pelas empresas que comporão a carteira 2015/2016 do Índice. Esse ciclo englobará muitas das contribuições recebidas desde o ciclo curto de revisão, ocorrido em 2014, e será baseado em um processo amplo de coleta de contribuições e mudanças significativas do questionário. Entre outras mudanças, o trabalho deve incluir a transferência de indicadores da dimensão Social para a Geral, criando um novo critério nesta dimensão. E também a inclusão de diversos novos temas, como diversidade nos Conselhos de Administração das empresas e cadeias de valor.

Além disso, o ISE prevê uma série de eventos e realizações para celebrar seus dez anos de atividades em 2015: um hotsite para divulgação das atividades do ISE 10 anos; plataformas para acesso ao conhecimento acumulado nessa década de ISE, como a Plataforma de Indicadores ISE; o Mapa Interativo e a Wiki Linha do Tempo; uma série de artigos técnicos, focados na análise do desempenho dos participantes do ISE nas oito dimensões avaliadas pelo questionário; além de um Fórum especial, reunindo profissionais da sustentabilidade empresarial e especialistas do Brasil e do exterior.

Com o ciclo longo de revisão do ISE em 2015, espera-se também um processo amplo de revisão do questionário do Guia Exame de Sustentabilidade, que será disponibilizado para preenchimento das empresas participantes em 2016. O Guia Exame também segue o exemplo do ISE na promoção da transparência: em 2015, o questionário de seleção para publicação incluirá uma pergunta sobre divulgação das respostas das empresas que participam do processo. Com isso, na divulgação do Guia, será possível conhecer as respostas das empresas que autorizaram a sua divulgação.

Outra frente notável de trabalho do GVces no desenvolvimento e aperfeiçoamento de índices e indicadores está na agenda de desenvolvimento local, consolidada desde o projeto do GVces com os Indicadores de Juruti (2007-2011) e reforçada em 2014 com a criação do projeto dos Indicadores de Belo Monte.

Em 2015, o projeto entra numa nova fase de coleta de dados mais intensificada e também de promoção do uso e da apropriação da tecnologia de monitoramento na sociedade local. A intenção é de que o acompanhamento dos indicadores do desenvolvimento e das ações, planos e transformações engendrados pelo empreendimento não se encerrem ao final do projeto. Por isso, a importância de se transferir a técnica e o conhecimento para o território e suas comunidades.

Durante o projeto, e para além dele, o que se busca é atuar permanentemente na troca com outros produtores de conhecimento e partes interessadas nesse grande tema, trazendo experiências e recomendações práticas para próximos empreendimentos, bem como sugestões de correções de rumo para Belo Monte.

Galeria de fotos