2014 Relatório
de atividades

Natureza com Benefícios

O consumo massivo e a exploração desenfreada dos recursos naturais promovidos pela humanidade nos últimos séculos nos cobram sua fatura: mudanças climáticas, secas e estiagens, perda da biodiversidade, epidemias de doenças antigas e novas, etc. Se todos esses fenômenos têm ligação com a devastação de biomas, não é à toa que a ideia do desenvolvimento sustentável esteja intimamente ligada à necessidade de conservar o capital natural – tanto para manter a capacidade de perpetuação e regeneração do meio ambiente, como para garantir o acesso das futuras gerações aos recursos naturais, sem prejuízo ao bem-estar da geração atual.

No Brasil, país conhecido mundialmente pela sua megabiodiversidade, preservar estes recursos naturais é estratégico para a construção de uma potência econômica e ambiental, sendo também fundamental para outras nações cuja resiliência ambiental depende da preservação de biomas como a Amazônia. Os desafios implícitos nessa tarefa são enormes, mas existem caminhos viáveis que podem nos levar a uma forma inovadora e sustentável de utilizar esses recursos, preservando-os para os brasileiros de amanhã e garantindo condições de vida mais dignas para os brasileiros de hoje.

UM JOGO PARA REDESCOBRIR O BRASIL
No Brasil, um tema de extrema relevância, mas de pouco apelo junto a governos, empresas e cidadãos em geral é a gestão de áreas protegidas. Além de patrimônios naturais e culturais, essas áreas são fontes de serviços ecossistêmicos, que interferem na regulação do clima, processos de erosão, produtividade agrícola, biodiversidade e nos fluxos de recursos hídricos. Esses últimos, por exemplo, impactam diretamente na nossa qualidade de vida, pois tais áreas protegidas têm influência na produção hidrelétrica de energia, que corresponde à maior parte da geração elétrica nacional.

Ao ignorar o tema, o país também perde a oportunidade de explorar um mercado bilionário. De acordo com estudo da LCA e do Instituto SEMEIA, o potencial de geração de renda ligada ao turismo em Unidades de Conservação (UCs), feitos investimentos mínimos, seria de R$ 53 bilhões em 10 anos, com a geração de 55 mil empregos. Estimativas mais otimistas (com investimentos mais numerosos e volumosos) apontam para ganhos na casa dos R$ 160 bilhões.

“Aceitamos o convite do GVces e do FIS por acreditarmos na importância de levar nossa missão para todas as instâncias da sociedade, indo além dos grupos envolvidos diretamente com as questões ambientais. Sabemos também o quão relevante é fazer com que o tema da gestão de áreas protegidas brasileiras se aproxime de futuros tomadores de decisão que, mesmo com atuação em outros setores, estarão em condições de influenciar positivamente o futuro do planeta. Essa experiência com os alunos do FIS foi extremamente positiva. Temos convicção de que esta disciplina contribuiu para a formação de uma consciência diferenciada nos participantes, que consideramos essencial para a construção de um futuro mais promissor para a sociedade e para o planeta.”

Fernanda Aidar,
do Instituto SEMEIA, parceira da turma Alcateia do FIS 9.

Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, as áreas sob gestão do National Park Systems (NPS) receberam em 2012 mais de 280 milhões de visitantes. Já as áreas de conservação brasileiras receberam neste mesmo período apenas seis milhões de pessoas. Como mudar este cenário? Como gerar mais conscientização, junto a gestores públicos, privados e cidadãos em geral, sobre a importância da preservação dessas áreas no Brasil?

Este foi o desafio proposto pelo GVces no 2º semestre de 2014 para os alunos da turma “Alcateia”, nona edição da disciplina Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS) - optativa oferecida para graduandos a partir do 5º semestre da FGV-SP. Mais do que pensar sobre o desafio da gestão de áreas protegidas no Brasil, a turma foi desafiada a pensar numa forma inovadora e criativa para catalisar o engajamento de públicos de interesse nesse tema.

Para isso, os alunos deixaram as salas de aula para se embrenhar em campo, na realidade enfrentada pelos atores que vivenciam esse problema no seu cotidiano. Os fisers visitaram UCs públicas e privadas nos Estados da Amazônia, Minas Gerais e São Paulo, conversaram com especialistas e gestores sobre os desafios e sobre as possíveis soluções para apoiar a gestão dessas áreas no Brasil. Para tanto, a turma contou com o apoio de organizações como o Instituto SEMEIA, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), e a Associação Brasileira das Empresas e Ecoturismo e Turismo de Aventura (ABETA), além de outros parceiros do FIS – o Banco Itaú, a Fundação Konrad Adenauer e a Gol Linhas Aéreas.

Ao mesmo tempo, os fisers precisaram “pensar fora da caixa” para desenvolver um produto final que fosse diferente e instigante – proposta que vem sendo reforçada pelo FIS em suas edições passadas. Os alunos do FIS 9 foram desafiados a produzir um jogo de tabuleiro, uma experiência lúdica e criativa que gerasse repertório para conversas e reflexões sobre o tema. Para tanto, a turma contou com a ajuda da Onça Games, empresa de destaque no segmento de jogos corporativos e que apoiou o GVces no desenvolvimento do jogo de tabuleiro “Celsius – O Desafio dos 2ºC” em 2012.

Em dezembro de 2014, a turma Alcateia apresentou o jogo “Missão Vera Cruz - Redescobrindo o Brasil”. O título do jogo é uma analogia a um dos primeiros nomes dados pelos navegadores portugueses ao território que seria futuramente chamado de Brasil. Para os fisers, a escolha de Vera Cruz é uma forma de dizer que, ao descobrir mais sobre as áreas protegidas do país, o jogador redescobre o Brasil em sua essência.

“No primeiro contato com o FIS, pude viver a complexa realidade da gestão de áreas protegidas no Brasil. Logo de início, percebi um grande desafio: pela primeira vez, o debruçar em exercícios, trabalhos e livros - tal como de costume - não me garantiria um bom desempenho. Pela primeira vez, a matemática tornou-se pouco exata, nada lógica. Decidi então me doar de corpo e alma às experiências proporcionadas pelo FIS. E quanto mais de mim ofereci, mais senti. Senti pertencer a uma realidade maior do que meu entendimento. Ao longo dos meses, acompanhei uma transformação em mim e em meus 15 colegas. Um grupo que, outrora, buscava resolver um problema de maneira objetiva e estruturada, passou a estar presente. Com o FIS, entendi que o significado da presença vai além do estar fisicamente. Presença significa caminhar de maneira consciente, com a segurança de viver por inteiro cada passo.”

Jéssica Chryssafidis,
fiser da turma Alcateia (FIS 9), sobre a experiência de participar desse processo coformativo.

“Quando recebemos a proposta do professor Mário - criar um jogo de tabuleiro junto com uma turma de dezesseis alunos do FIS - achamos a proposta bastante ousada! Até onde sabíamos, nenhum game designer havia feito algo assim. Mas a experiência se demonstrou fantástica! Os alunos rapidamente se apropriaram das ferramentas, demonstraram uma criatividade impressionante e criaram um jogo excelente sobre um tema complexo: Gestão de Unidades de Conservação. Para nós, foi uma vivência marcante!”

Fabiano Onça,
da Onça Games, um dos parceiros que apoiou a turma Alcateia (FIS 9) no desenvolvimento do jogo "Missão Vera Cruz - Redescobrindo o Brasil"

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DIRETRIZES PARA VALORAR OS SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS
Se os brasileiros podem redescobrir o Brasil a partir das suas áreas de conservação, as empresas também podem redescobrir seu próprio negócio a partir dos serviços ecossistêmicos. Eles ainda são desconsiderados na definição dos preços dos produtos no mercado como se a natureza os tivesse disponibilizado para uso irrestrito e sem custo. No entanto, os recursos naturais, pensados enquanto serviços prestados pela natureza à humanidade, são fundamentais para a vida – e sua invisibilidade perante aos tomadores de decisão é inviável para o nosso futuro.

Empresas têm esboçado maior conscientização sobre a importância dos chamados 'serviços ecossistêmicos' em suas próprias operações de produção, logística e consumo. Estes serviços são definidos como as contribuições diretas e indiretas dos ecossistemas à economia e ao bem estar da humanidade, e podem ser inicialmente classificados em quatro categorias: provisão (de alimentos, água, matérias-primas, biocombustíveis, recursos genéticos, etc.), regulação (clima, polinização, controle biológico de pragas e doenças, etc.), habitat (manutenção dos ciclos de vida de espécies migratórias e da diversidade biológica), além de recursos serviços culturais (recreação, turismo, identidade e patrimônio cultural, identidade espiritual, beleza cênica, etc.).

As atividades econômicas devem levar em conta o valor desses serviços, dos quais se beneficiam e dependem, e sobre os quais muitas vezes exercem impactos intensos. Boa parte dos principais desafios ambientais da atualidade está relacionada a problemas na manutenção desses serviços ecossistêmicos, como a diminuição da água disponível para consumo, o incremento do efeito estufa e a redução da polinização.

A iniciativa empresarial do GVces Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) busca apoiar as empresas no desenvolvimento de ferramentas e metodologias que facilitem a mensuração e a valoração dos serviços ecossistêmicos – tarefas essenciais para desenvolver estratégias efetivas de conservação dos serviços ecossistêmicos e de garantia da disponibilidade desses serviços no futuro.

No ano passado, a TeSE revisitou as Diretrizes Empresariais para Valoração Econômica de Serviços Ambientais (DEVESE) desenvolvidas em 2013 com foco em seis serviços ecossistêmicos (quantidade de água, qualidade de água, assimilação de efluentes líquidos, regulação do clima global, recreação e turismo, e biomassa combustível). Nesta nova fase de trabalho, foram incluídos outros dois serviços (regulação de polinização e regulação de erosão do solo), além da ampliação de regulação do clima global para abarcar também métodos para o desmatamento evitado. A versão 2.0 da DEVESE, resultado dos trabalhos de 2014, foi publicada em maio de 2015, junto com uma ferramenta de cálculo que faz os cálculos de quantificação e valoração previstos na DEVESE, além de agregar as informações de escopo.

Junto com o aperfeiçoamento da DEVESE, a TeSE também promoveu projetos-piloto junto a algumas de suas empresas membros para testar a aplicabilidade das diretrizes para valoração econômica de serviços ecossistêmicos. Esses projetos-piloto foram sistematizados em estudos de caso que relatam o processo de aplicação dos métodos de valoração, a partir do escopo delimitado por cada empresa. O objetivo dos estudos de caso é ilustrar possibilidades de aplicação dos métodos, compartilhando o conhecimento construído dentro da TeSE, mas também apontando aos leitores da DEVESE adaptações do método que podem ser feitas conforme as necessidades da empresa.

Outra frente de trabalho da TeSE foi o desenvolvimento da primeira versão das Diretrizes Empresariais para Relato de Externalidades Ambientais. A DEREA procura orientar as organizações na elaboração de um relato claro e objetivo de suas estimativas de valor econômico de externalidades ambientais positivas e negativas, permitindo uma interpretação realista e coerente do que essas estimativas efetivamente representam para a empresa e suas partes interessadas. Esse esforço se alinha à proposta da TeSE em avançar em elementos que possibilitem a construção futura de um mecanismo de mensuração, relato e verificação (MRV) para os serviços ecossistêmicos, similar àquele consolidado atualmente em matéria de emissões de gases de efeito estufa (GEE).

No ano passado, a TeSE revisitou as diretrizes elaboradas em 2013 para valoração econômica de serviços ecossistêmicos, com o propósito de incluir novos serviços e aperfeiçoar a ferramenta com base nas experiências dos projetos piloto.

“Eu acredito que essas publicações da TeSE serão bastante utilizadas nos próximos anos, da mesma forma que as Especificações publicadas pelo Programa Brasileiro GHG Protocol há seis anos. As coisas caminham muito rapidamente, e as mensagens que recebemos da natureza acabam acelerando esse processo. Quem sabe possamos ter, num futuro próximo, um sistema de mensuração, relato e verificação (MRV) para serviços ecossistêmicos, da mesma forma que temos hoje para carbono?”

Mario Monzoni,
coordenador do GVces, durante lançamento da DEVESE 2.0 e DEREA 1.0, publicações desenvolvidas pela TeSE em seu ciclo 2014 (maio/2015)

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AGRICULTURA FAMILIAR NA CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS
Poucas frentes de atuação econômica trabalham tão diretamente com os recursos da natureza como a agricultura. Exatamente por isso, a atividade agrícola é um importante espaço para promover práticas de manejo e conservação desses recursos – principalmente no plano da agricultura familiar, pela sua representatividade no setor.

Apesar da importância econômica da produção agrícola familiar, muitas vezes, devido à falta de conhecimento e adequação de infraestruturas e processos, os pequenos produtores passam por dificuldades de organização e de gestão, bem como de armazenamento e distribuição de seus produtos.

Nesse contexto, as Secretarias do Meio Ambiente (SMA) e da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo iniciariam uma parceria através do Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS) – Microbacias II. Com recursos do Banco Mundial, essa iniciativa financia subprojetos ambientais propostos por organizações de produtores rurais familiares e de populações vulneráveis que visam a diversificação econômica, geração e renda e inclusão social de pequenos produtores, ao mesmo tempo em que fazem uso sustentável dos recursos naturais e contribuem para sua conservação.

O GVces atua nesse projeto dando suporte à implementação dos subprojetos ambientais financiados pelo PDRS, tendo como foco a avaliação e o apoio à viabilidade econômica das atividades propostas em cada subprojeto.

Os cinco subprojetos ambientais que estão sendo acompanhados pelo GVces no âmbito do PDRS estão localizados em Barra do Turvo, Eldorado, Ibiúna, Mogi das Cruzes e Ribeirão Preto e envolvem atividades de melhorias na infraestrutura e na organização do viveiro de uma comunidade quilombola; implantação de unidade de processamento mínimo em uma cooperativa de produtores rurais com aproveitamento de resíduos e subprodutos; estruturação de agroindústria para processamento da produção agroflorestal em uma associação de produtores rurais; implantação e enriquecimento de sistema agroflorestal em área de Reserva Legal de assentamento da reforma agrária; e produção de mudas, plantio e beneficiamento de espécies frutíferas nativas e de ervas aromáticas em uma associação de produtores que praticam agricultura orgânica.

Para tanto, a equipe do programa Inovação na Criação de Valor do GVces realizou visitas de diagnóstico e oficinas de capacitação, que endereçaram aspectos críticosde cada subprojeto, bem como conteúdo relacionado a plano de negócios. A partir desse diagnóstico e da capacitação dos grupos gestores dos subprojetos, o GVces acompanhou a evolução dos trabalhos, realizando oficinas de acompanhamento em campo que abordaram de forma participativa elementos estruturantes da visão de negócios aos produtores rurais para viabilizar cada subprojeto.

“Os trabalhos de consultoria desenvolvidos pelo GVces junto ao PDRS (Microbacias II) possibilitaram conhecer e vivenciar novas ferramentas e dinâmicas participativas de diagnóstico, planejamento e monitoramento de projetos. Além disso, as visitas do GVces realizadas ao Centro de Formação Dom Hélder Câmara foram sempre importantes momentos de diálogo, apropriação do projeto, diagnóstico de entraves, proposição de soluções e monitoramento de metas e atividades do projeto. O Plano de Ação elaborado de forma participativa constituiu um importante instrumento de acompanhamento do projeto.”

Fernanda Gamper Vergamini,
Especialista Ambiental e gestora do subprojeto ambiental Renascer das Águas do Aqüífero Guarani pela Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

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GESTÃO EMPRESARIAL PARA REDUZIR AS EMISSÕES DE GEE

Se há uma agenda que avançou consideravelmente na última década dentro das empresas no Brasil e no mundo, esta é a agenda das mudanças climáticas. A conscientização das empresas sobre a gravidade desse problema é cada vez maior, o que vem incentivando essas organizações a buscar caminhos para se inserir no enfrentamento da questão climática. Para a economia em geral e para as empresas, o desafio do clima passa pela adaptação das suas operações, processos e produtos com menos emissões de GEE associadas, sendo a mensuração e gestão das emissões os primeiros passos para esta transição rumo a uma economia de baixo carbono.

Há seis anos, o Programa Brasileiro GHG Protocol vem atuando nesta fronteira da mensuração e relato de emissões corporativas de GEE no Brasil, e o contexto atual demonstra a importância desta questão para as empresas brasileiras. Como os Planos Setoriais previstos pela Política Nacional de Mudanças Climáticas já são uma realidade, e somados à criação de legislações estaduais para o relato de inventários de GEE (os Estados de MG, PR, RJ e SP já possuem regulação para relato de inventários de GEE de instalações que operam em seus territórios), as empresas precisam se adaptar às exigências de monitoramento, gestão e redução de suas emissões corporativas. Além disso, no plano internacional, espera-se o estabelecimento de um novo acordo climático global que contenha obrigações de redução para o Brasil, que replicarão necessariamente sobre os atores econômicos do país, em especial os setores mais intensivos em emissões.

Desde 2008, foram publicados 930 inventários no Registro Público de Emissões. Nesse período, a equipe do Programa capacitou mais de 600 organizações, entre empresas privadas, da administração pública e do terceiro setor, e mais de 1.300 gestores foram treinadas no método GHG Protocol.

Desde sua criação (2008), o número de membros do Programa Brasileiro GHG Protocol saltou de 27 para 128, crescimento de 457% em seis anos. Entre 2013 e 2014, o grupo de membros aumentou 20%. Veja abaixo outros números do Programa em 2014

  • 273 inventários publicados (inventários referentes às operações de 2013);
  • 48% dos membros publicaram inventários completos e verificados por terceira parte, recebendo assim o Selo Ouro;
  • 92% dos inventários publicados em 2014 incluíram todas as fontes de emissão de escopo 1 e 2 da organização;
  • Total de emissões de 92,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2eq) em 2013, igual a 8,9% da projeção para o total de emissões nacionais no mesmo ano (excluindo o setor de mudança de uso do solo e florestas);
  • Setores mais representativos: indústria de transformação (32% das emissões totais dos membros do Programa); atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (12%); e eletricidade e gás (9%).

Em 2014, o Programa continuou seu trabalho de engajamento das organizações brasileiras na gestão de suas emissões corporativas. Além de promover sessões de capacitação para seus membros, a equipe do GVces também promoveu oficinas para debater questões como regulações sobre MRV de inventários de GEE, comunicação e relato de inventários, além de emissões associadas a transporte de carga e passageiros. Nesse último tema, o Programa desenvolveu junto com seus membros uma nova ferramenta auxiliar para quantificar esse tipo de emissão dentro da contabilização de emissões de escopo 3 (aquelas fora do controle operacional da organização) no inventário.

Em agosto, durante o seu Evento Anual, o Programa apresentou os resultados de 273 inventários de emissões de GEE referentes a 2013 de 128 organizações nacionais, distribuídas em 16 setores e 57 subsetores da economia brasileira. Esses inventários somaram 92,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2eq), equivalente a quase 9% da projeção para o total de emissões nacionais em 2013 (excluindo as emissões de mudança de uso do solo e floresta). Pela primeira vez, quase a metade dos inventários estava com informações completas e verificadas por organismos de verificação independente, recebendo assim o Selo Ouro do Programa Brasileiro GHG Protocol. Entre todos os inventários publicados no ano passado, mais de 90% contavam com informações completas sobre as emissões de escopo 1 (emissões das operações diretas, sob controle da organização) e de escopo 2 (emissões para geração de energia consumida).

O esforço do Programa para consolidar o método GHG Protocol no Brasil também tem tido resultados junto ao poder público. Em 2014, o Paraná se tornou o 4º estado brasileiro (depois de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo) a recomendar o GHG Protocol como método de contabilização para os inventários relatados no âmbito da regulação estadual.

Além disso, em 2014, o Programa também aprofundou sua atuação junto à Global Climate Registry Alliance, aliança criada em 2012 e que reúne programas que possuem registros de inventários de GEE em diversos países, apoiando os esforços para medir e gerenciar emissões de GEE globalmente. Durante a Conferência do Clima de Lima (COP20), realizada em dezembro na cidade de Lima (Peru), o Programa participou de encontros com empresas e gestores de regulações estaduais de relato de inventários de diversos países, como Brasil, China, EUA e Canadá, com foco na estruturação de um possível registro global para inventários de companhias com atuação em vários países e em como os registros voluntários podem auxiliar a coleta de dados para regulações subnacionais mandatórias, exemplo que já acontece em alguns estados norte-americanos.

No Evento Anual do Programa Brasileiro GHG Protocol de 2014, foram apresentados 273 inventários de emissões de 128 organizações nacionais. Pela 1ª vez, quase a metade dos inventários continha informações completas e verificadas por terceiros, recebendo assim o Selo Ouro do Programa.

"O treinamento foi muito importante para que nós pudéssemos conhecer melhor o método do GHG Protocol, o mais conhecido e confiável disponível atualmente. Esta capacitação nos ajudou a saber como se faz o mapeamento e o levantamento dos dados e como inseri-los na ferramenta para cálculo das emissões."

Adriane Mara Ribeiro,
Grupo Positivo, sobre treinamento para novos membros do Programa Brasileiro GHG Protocol (novembro/2014)

"A equipe do Programa é muito engajada e conduziu o treinamento de forma interessante e didática, deixando claro para nós como podemos fazer a gestão do inventário dentro da empresa, sem a necessidade de uma consultoria. Tem muita gente que ainda vê o inventário como um bicho de sete cabeças, mas quando você adere a um programa tão estruturado, como o Programa Brasileiro GHG Protocol, a gente consegue enxergar que existem possibilidades interessantes para fazer a gestão das emissões dentro da própria empresa. Além de ter essa interação, que facilita na hora de entender novos padrões e metodologias, temos esse contato com outras empresas que estão fazendo a mesma coisa, o que nos oferece um benchmarking legal."

João Francisco Zene,
da GVT, sobre treinamento para novos membros do Programa Brasileiro GHG Protocol (novembro/2014)

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O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

O custo de agir é muito menor que o custo de não agir diante das mudanças climáticas, da escassez de recursos naturais e da degradação do meio ambiente. Em muitos casos, a ação consegue ser mais rentável que a omissão, pois cria oportunidades de inovação que vão muito além do problema em si, reverberando para toda a cadeia e, consequentemente, para toda a economia.

Aos poucos, a mentalidade da ação está substituindo a da omissão. Se compararmos a leitura que as empresas faziam sobre as mudanças climáticas há dez anos com o que vemos hoje, percebemos o avanço enorme que essa agenda teve nessa década. Isso se reflete no sucesso do Programa Brasileiro GHG Protocol, criado para disseminar a cultura de inventários corporativos e gestão de emissões no Brasil; seis anos depois de sua criação, essa disseminação já é uma realidade palpável no mundo empresarial brasileiro. A nossa esperança é que, da mesma forma que ajudamos a mudar a mentalidade das empresas brasileiras sobre clima, o GVces também possa contribuir para transformar os padrões de reflexão e conduta desses atores em temas como serviços ecossistêmicos e conservação da biodiversidade.

Nesse sentido, a TeSE é uma frente importante de trabalho para o GVces nos próximos anos. Além de continuar o processo de revisão das diretrizes empresariais para valoração econômica de serviços ecossistêmicos e para relato de externalidades ambientais, a TeSE avançará na incorporação de uma nova categoria de SE em sua atuação: os serviços ecossistêmicos culturais. Esses serviços são benefícios não-materiais que as pessoas obtêm de ecossistemas, como beleza cênica, identidade cultural/espiritual, inspiração, patrimônio cultural, além de recreação e turismo.

Conhecer os valores atribuídos pelas comunidades locais a esses serviços é essencial para que o setor empresarial possa diagnosticar a interação destas comunidades com seus territórios para entender e gerenciar conflitos e benefícios diretos/indiretos dos negócios. Isso porque o bom relacionamento da empresa com seus públicos de interesse é cada vez mais determinante para a sobrevivência de seus negócios em um mercado cada vez mais globalizado e competitivo. Em 2015, a TeSE buscará desenvolver uma metodologia de valoração não monetária dos serviços ecossistêmicos culturais, através da perspectiva dos stakeholders.

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